O brincar de uma criança pode ser anunciado desde os primeiros tempos de vida, quando a mãe brinca por meio dos seus cuidados com o seu olhar, com o seu toque e com a sua entonação de voz e a criança responde a estes movimentos. Brincam juntos, na possibilidade de reconhecimento de ambos, a mãe exercendo sua maternagem, e a criança na tentativa de um reconhecimento de si; das suas emoções, seus sentimentos, assim como do seu corpo.

Brincam não porque o brincar seja intrínseco à criança, mas pela disponibilidade que ambos constroem a partir do vínculo que se estabelece. Brincam porque é a forma mais humana e efetiva de uma criança reconhecer a relação na qual está envolvida, e que consiste em ser o instrumento que lhe proporcionará descobrir o seu valor, bem como o desvendar do seu mundo.

Portanto, a mãe, ou quem está exercendo a função materna, é quem possibilitará, através dos seus cuidados, que futuramente a criança tenha a possibilidade de brincar. A mãe empresta o seu corpo e todo o seu recurso psíquico para que a experiência do brincar possa surgir. A forma como a mãe toca o corpo do seu bebê, como ao dar um colo que acalenta, origina o mapeamento de um lugar e de um corpo que se descobre. Quando a mãe ou o pai brincam com o pezinho do bebê estão promovendo sensações boas que fazem marcas de satisfação, as quais o bebê buscará ao explorar sua mão, seu pé, seu corpo. A voz da mãe faz um chamamento para a vida. O seu olhar captura os sinais, transforma esse sinal em algo grandioso e antecipa conquistas.

Quando, ao dizer, “que bebê é esperto, vai ser um inventor”, o cuidador propõe algo para o seu futuro e sobre tais propostas a criança se apoiará para fazer-se, por vezes concordando com tal ideal ou fazendo diferente desta.

Nessa relação, o bebê se apropria de toda a história familiar, que lhe é transmitida através do discurso materno e dos cuidados que, dia após dia, são remetidos a ele. E será através do brincar que a criança terá a possibilidade de elaborar e de se apropriar dessas histórias que farão parte da sua história. Inclusive, pede que essas sejam repetidas muitas vezes quando o pai conta uma aventura sua de infância.

Então, a criança brinca na tentativa de buscar o prazer e na intensa experiência do saber. Saber sobre si e sobre as coisas que lhe cercam. Brinca para sair da posição de passividade, e para se colocar em atividade e buscar compreender o que seus pais lhe pedem. Ela brinca para ser e daquilo que ainda não é. No agora, com a simples disponibilidade de estar brincando de “faz de conta que eu era” e repete a brincadeira quantas vezes lhe fizer sentido.

Pensando nas experiências de vida diária da criança – quando são recheadas por um cenário lúdico, como o hábito de comer, dormir e lavar-se, estas permanecem registradas como momentos de satisfação e tendem a ser repetidas de forma prazerosa e significativa. Deste modo, a criança vivencia tais situações, não mais de forma passiva, onde nada pode ser feito, mas com a possibilidade de viver de forma significativa a experiência e ressignificar seus sentimentos e emoções através das suas possibilidades afetivas e cognitivas. Através do brincar a criança se coloca em trabalho e procura respostas. Brinca, como um jogo, onde coloca em cena as suas ilusões e desilusões frente a vida.

 

Autora: Raquel Dickel
raquel.dickel@hotmail.com
Psicóloga. Especialista em Estimulação Precoce

Fonte: Publicado no Psicologia.pt a: 2017-07-02 | Idioma: Português (Brasil) | Palavras-chave: Criança, brincar, constituição psíquica


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